
Agosto 2013 - Maio 2018
Como criar uma experiência de personalização de produtos esportivos que seja intuitiva e engajante, permitindo que consumidores configurem camisas, uniformes e acessórios com nome, número e cores — evitando frustrações, abandono de carrinho e pedidos com especificações incorretas que geram devoluções e prejuízo operacional?
A Netshoes identificou uma oportunidade significativa no mercado de produtos personalizados: torcedores queriam camisas oficiais com seus nomes, times amadores precisavam de uniformes customizados, empresas buscavam brindes corporativos personalizados e clientes comuns que procuravam produtos personalizados do seu jeito. O problema era que a experiência existente gerava alta taxa de abandono (usuários desistiam no meio do processo) e um volume expressivo de devoluções por produtos que não correspondiam à expectativa do cliente. Fui contratado como Product Designer para redesenhar completamente a experiência de customização, além de buscar em nível global novos tipos de produtos que poderiam ser personalizados e equipamentos específicos para este fim. Através de pesquisas com usuários reais, análise de concorrentes (Nike By You, Adidas MiCoach) e testes de usabilidade, identifiquei os principais pontos de fricção: falta de preview em tempo real no site, campos de texto sem validação, ausência de indicadores de progresso, e interface que não comunicava claramente as limitações técnicas (caracteres máximos, cores disponíveis, áreas de impressão).
O configurador de produtos customizados da Netshoes foi desenvolvido como uma ferramenta interativa que guia o usuário passo a passo no processo de personalização. A interface apresenta preview em tempo real das alterações, validação instantânea de campos (evitando erros de digitação e caracteres inválidos), e um fluxo progressivo que reduz a carga cognitiva. O sistema integra-se ao backend de produção, gerando automaticamente arquivos prontos para impressão/sublimação, eliminando retrabalho manual e garantindo fidelidade entre o que o cliente visualiza e o que recebe.
•Experiência centrada no usuário (UX), com fluxo progressivo e feedback visual imediato
•Redução de erros através de validação em tempo real
•Preview dinâmico que mostra exatamente o resultado final antes da compra
•Aumento do número de possibilidades de personalização
•Integração com sistema de produção para gerar arquivos print-ready automaticamente
•Redução de devoluções por expectativa não atendida
•Aprendizado constante e implementação de novos processos, automatizando tarefas e ensinando os colaboradores nos novos processos
O configurador de produtos customizados impacta três perfis de usuário completamente diferentes, cada um interagindo com uma etapa distinta do processo — mas todos dependendo da mesma experiência funcionar perfeitamente.
A primeira persona (Torcedor/Consumidor Individual) representa o comprador emocional que quer uma camisa única para usar em jogos, presentear alguém especial ou colecionar. Para ele, a experiência precisa ser divertida, rápida e sem fricção. Ele não quer ler manuais — quer ver o resultado na hora e finalizar a compra no impulso da emoção, muitas vezes durante o intervalo de um jogo que está assistindo.
A segunda persona (Organizador do time de bairro/ time de Amigos) representa o fanático por futebol que há anos reúne a galera toda semana para jogar e finalmente decidiu transformar o grupo em um time de verdade — com nome, escudo, cores e uniforme completo. Para ele, a experiência precisa permitir a configuração de múltiplas camisas (cada uma com nome e número diferente), salvamento do progresso para continuar depois, e principalmente: uma forma fácil de compartilhar o preview com os amigos no WhatsApp para aprovação antes de finalizar a compra.
A terceira persona (Operador de Personalização) representa quem transforma o pedido digital em produto físico. São os profissionais que operam prensas térmicas, plotters, máquinas de bordado e todo o maquinário que dá vida à personalização. Para eles, a experiência precisa gerar arquivos de produção impecáveis: fontes convertidas, cores calibradas, posicionamento definido, e instruções claras. Cada erro no configurador vira retrabalho na fábrica, atraso na entrega e cliente insatisfeito. Eles são os guardiões da qualidade final.

Torcedor apaixonado que quer personalizar produtos esportivos para uso próprio ou presente; compra por impulso emocional; valoriza experiência visual e rapidez.
"Quero ver como vai ficar com meu nome no manto do meu time antes de comprar. Se demorar muito para entregar, desisto e compro a camisa padrão mesmo."

Fanático por futebol que organiza a pelada semanal do grupo de amigos há 8 anos; sonha em transformar a 'resenha' em algo mais sério com uniformes próprios, nome do time e identidade visual.
"Jogamos juntos há 8 anos e nunca tivemos um uniforme de verdade. Quero criar uma camisa legal para cada um, com nome nas costas. Vai ser épico quando a galera ver!"

Operadora de máquinas de personalização em centro de distribuição; responsável por transformar os pedidos customizados em produtos físicos através de processos de sublimação, transfer e bordado.
"Cada camisa que sai daqui tem o nome de alguém. Não posso errar. Quando o arquivo vem certinho do sistema, meu trabalho flui. Quando vem com problema, atrasa tudo."
Todo time de amigos tem uma história. Talvez tenha começado com uma pelada no campinho de terra do bairro, uma quadra alugada na quinta à noite, ou aquele society que virou ponto de encontro sagrado há anos. O que era uma brincadeira virou tradição. O grupo de WhatsApp tem mais mensagens que muita família. E em algum momento, alguém fala: E se a gente fizesse um uniforme de verdade?
Esse momento marca a transição de um grupo de amigos que joga bola para um time — com nome, identidade e orgulho próprio. E é exatamente para esse momento que existe a experiência de personalização completa de uniformes. A personalização vai muito além de colocar um nome nas costas. Trata-se de criar uma identidade visual completa que transforma jogadores de fim de semana em um elenco coeso, com visual de quem disputa campeonato.
O Kit Completo: Do Escudo à Chuteira
Tanto Lucas quanto Rodrigo merecem mais que uma camisa com nome. Merecem uma experiência completa de personalização que atende desde quem quer uma peça única até quem está montando o fardamento de um time inteiro.
Camisa Personalizada: O coração de tudo. Modelos que vão do clássico ao moderno, cores ilimitadas, escudo posicionado no peito, nome e número com tipografia esportiva profissional. Lucas configura a dele em dois minutos. Rodrigo cria o template e replica para os 15 jogadores, com a opção de escolher os tamanhos para cada amigo.
Escudo do Time: Para Rodrigo, isso é sagrado. O configurador aceita upload do escudo próprio ou oferece um criador simples para quem não tem designer na família.
Calção Coordenado: Lucas pode não se importar tanto, mas para Rodrigo é fundamental. De maneira alguma cada jogador deve aparecer com um short diferente. O calção nas cores do time completa o visual profissional que ele sempre sonhou.
Meias do time: O detalhe que fecha o look. Nas cores do time, com listras ou detalhes que conversam com o uniforme. Na foto oficial, todo mundo coordenado da canela ao ombro.
Chuteiras sugeridas: Para os perfeccionistas como Rodrigo, que querem até a chuteira combinando, o sistema sugere modelos em cores harmônicas e ainda permite personalizar com o nome. Lucas provavelmente pode pular essa parte. Rodrigo anota para comprar na próxima promoção.




O sucesso do configurador de camisas personalizadas revelou uma verdade que mudou a estratégia da Netshoes: o torcedor brasileiro não quer apenas uma camisa com seu nome — ele quer cercar sua vida inteira com a identidade do time que ama. Da caneca do café da manhã ao chinelo do fim de semana, do squeeze da academia à mochila do dia a dia, cada objeto é uma oportunidade de expressar paixão.Essa descoberta nos levou a expandir o ecossistema de personalização para muito além do vestuário, criando configuradores específicos para cada categoria de produto. E com novos produtos, vieram novas personas — cada uma com motivações, contextos de uso e necessidades únicas que precisavam ser compreendidas e atendidas.
Enquanto concorrentes ofereciam personalização genérica (um configurador igual para tudo), a Netshoes entendeu que cada persona merece uma experiência sob medida. O torcedor impulsivo não pode ver as mesmas telas que a mãe planejadora. O presenteador de última hora não pode enfrentar o mesmo fluxo que o colecionador meticuloso. Esse entendimento — traduzido em configuradores especializados, fluxos otimizados por perfil, e integração perfeita com a produção — transformou a personalização de feature secundária em pilar estratégico de diferenciação.







Em 2017, a Netshoes - já consolidada como líder em e-commerce esportivo na América Latina - deu um passo estratégico decisivo: a aquisição da Shoestock, e-commerce premium de calçados e acessórios de moda. O movimento não era apenas expansão de portfólio; era entrada em um território completamente novo: o mercado de luxo acessível. A Shoestock trazia consigo um público diferente: mulheres de alto poder aquisitivo, exigentes, fiéis a marcas premium como Arezzo, Schutz, Luiza Barcelos, e com expectativas de experiência de compra muito superiores ao padrão do e-commerce brasileiro.
Desafio: Dois mundos, Uma plataforma
A integração técnica das plataformas era complexa, mas o verdadeiro desafio era cultural e experiencial. Como manter a identidade sofisticada da Shoestock dentro do ecossistema Netshoes? Como aproveitar a infraestrutura logística e tecnológica da operação esportiva sem "contaminar" a experiência premium? E, principalmente: como levar a expertise de personalização - já dominada no universo esportivo - para um público muito específico?
Personalização Reimaginada: Do Esportivo ao Sofisticado
Minha missão foi adaptar todo o sistema de personalização para atender às expectativas do público Shoestock. Não era apenas trocar cores e fontes, era repensar fundamentalmente o que "personalização" significa para uma cliente premium



A produção de itens Shoestock personalizados era segregada:
Meu trabalho neste projeto transcendeu as fronteiras tradicionais do design de produto. Não bastava criar uma interface bonita e funcional para o consumidor final; era preciso garantir que toda a cadeia produtiva estivesse preparada para entregar o que a tela prometia. Isso significou sair do escritório, vestir o uniforme de visitante, e passar semanas nos centros de distribuição entendendo, documentando e ensinando processos.
A Netshoes opera a personalização de produtos em três unidades estrategicamente distribuídas pelo Brasil: Barueri (SP), o CD principal e maior operação; Extrema (MG), que atende a região Sudeste com benefícios fiscais; e Jaboatão dos Guararapes (PE), responsável por todo o Nordeste. Cada unidade tem suas particularidades — equipamentos de gerações diferentes, equipes com níveis de experiência distintos, e desafios logísticos próprios. Mas todas precisavam operar com o mesmo padrão de qualidade.
Antes de propor soluções, passei dias em cada unidade observando o fluxo de trabalho. Sentei ao lado dos operadores, acompanhei pedidos do recebimento à expedição, e principalmente: ouvi. Ouvi as frustrações com arquivos que chegavam errados. Ouvi as gambiarras criadas para resolver problemas recorrentes. Ouvi as ideias que nunca tinham chegado aos ouvidos de quem tomava decisões. O diagnóstico revelou uma desconexão crítica: adesivos desenvolvidos sem entender corretamente todas as limitações físicas da produção, enquanto os operadores recebiam pedidos impossíveis de executar com qualidade. Nomes com 20 caracteres que não cabiam no espaço. Cores que existiam no RGB da tela mas não no CMYK da sublimação ou transfer. Escudos com detalhes minúsculos que viravam borrões na prensa e no bordado.
Meu papel foi construir a ponte entre esses dois mundos. Isso envolveu um trabalho em múltiplas frentes que demandou tanto conhecimento técnico de design quanto habilidade de comunicação e ensino. Este pensamento me fez gerar grandes frentes de trabalho, listadas abaixo:
Documentação técnica humanizada:: criei manuais de operação que não pareciam manuais. Em vez de texto técnico impenetrável, desenvolvi guias visuais com fotos reais do processo, passo a passo ilustrado, e seção de "problemas comuns e soluções" baseada no que os próprios operadores enfrentavam. Cada unidade recebeu material adaptado aos seus equipamentos específicos.
Treinamentos presenciais nas três unidades:: conduzi treinamentos práticos em Barueri, Extrema e Jaboatão. Não eram apresentações de PowerPoint em sala fechada, eram sessões no chão de fábrica, com mão na massa, simulando cenários reais. Os operadores aprendiam fazendo, errando em ambiente controlado, e entendendo o porquê de cada procedimento.
Formação de multiplicadores:: em cada unidade, identifiquei operadores seniores com perfil de liderança e os capacitei como multiplicadores. Eles se tornaram referência local para dúvidas, treinamento de novos funcionários, e canal de feedback para melhorias. Cada um destes se tornaram meus olhos e ouvidos permanentes na operação.
Calibração de Equipamentos e Padronização de Insumos:: parte significativa do trabalho envolveu aspectos que normalmente não chegam ao escopo de um Product Designer, mas que eram essenciais para a qualidade final. Trabalhei com fornecedores de adesivos e bordados para que garantissem consistência entre as três unidades. O “verde” da Netshoes Baruei precisava ser o mesmo “verde” em Extrema e Jaboatão, independente da marca da impressora ou do lote do papel. Desenvolvi gabaritos físicos para cada tamanho de camisa, cada tipo de produto (camisa, calção, regata), e cada posição de aplicação (nome nas costas, número frontal, escudo no peito, etc). Documentei os parâmetros ideais de temperatura, pressão e tempo para cada combinação de material e tipo de aplicação. Esses parâmetros foram incorporados ao sistema, que passou a exibir as configurações recomendadas junto com cada pedido: o operador não precisava mais memorizar ou adivinhar.

Este projeto me ensinou que Product Design de verdade não termina quando o Figma ou o Illustrator fecham. A experiência do usuário final - aquele torcedor que abre a caixa e vê seu nome na camisa - depende de uma cadeia de pessoas, processos e máquinas funcionando em harmonia.
O Lucas em BH só fica feliz se a Cláudia em Barueri recebeu um arquivo perfeito. O Rodrigo só distribui as camisas do seu time se os três Centros de Distribuição conseguem produzir com consistência. E a Cláudia só consegue fazer um trabalho excelente se o sistema que projetei foi pensado considerando suas necessidades desde o primeiro wireframe. Design centrado no usuário, neste caso, significou três usuários completamente diferentes, e uma experiência única que funciona para todos, mesmo adicionando ao final produtos de luxo.